3º Bimestre - Turma 801
Tecnologia pode tirar ciências humanas da Idade Média, diz Pierre Lévy
Filósofo trabalha em linguagem artificial para reorganizar o conhecimento humano
Quando Pierre Lévy, 63, começou a escrever sobre cibercultura, a internet toda era mato.
O filósofo franco-canadense é um dos pioneiros a tratar da relação entre sociedade e computador, em particular num mundo conectado. Orgulha-se de escrever sobre o assunto desde o começo dos anos 90.
Para ele, as ciências humanas precisam passar por uma revolução, como passaram as naturais, e a tecnologia é a chave para atingir um “patamar mínimo” no tratamento dessa área. “Nas humanidades ainda estamos na Idade Média.”
Sua teoria passa por inteligência coletiva, aquele conhecimento acumulado e compartilhado por toda uma espécie ou grupo. Pode ser pela organização de animais como formigas, que trocam informações entre si, mas ganha força em seres humanos, com a capacidade de usar a linguagem —linguagem esta, diz, potencializada pelas tecnologias de comunicação.
“Em vez de desenvolver máquinas inteligentes [com inteligência artificial], deveríamos usar os computadores para nos tornar mais inteligentes”, contesta.
O filósofo quer reorganizar o conhecimento humano. Trabalha numa linguagem artificial que faria humanos conversarem diretamente com máquinas sem o intermédio da programação.
Em 2020, pretende lançar um livro explicando a gramática da nova língua (sem data e editora definidos) e, depois disso, se aposentar. “Pra mim, aposentadoria é só não dar mais aula e ter mais tempo para escrever.”
Lévy nasceu na Tunísia, mas desenvolveu sua carreira acadêmica na Universidade de Sorbonne, na França. A partir deste semestre, será pesquisador da Universidade de Montreal após 17 anos trabalhando na Universidade de Ottawa, ambas no Canadá, onde vive desde 1998.
Falou à Folha por cerca de 50 minutos em videochamada, sempre em tom espirituoso —ria, fazia vozes, caras e bocas— e com as malas já prontas para vir ao Brasil. Participará do Fronteiras do Pensamento, em Salvador, nesta terça-feira (10).
Hoje, vivemos em um mundo extremamente conectado. Temos computadores em todos os lugares. O que isso muda para a sociedade? [Risos] Muda muito! Para mim, a chegada de computadores pessoais, depois, a internet, o smartphone e por aí vai, transformam o sistema de comunicação da nossa sociedade. Acho que a primeira grande revolução na história da comunicação foi a invenção da escrita, que levou a uma sociedade mais hierarquizada, dividida entre aqueles que sabem ler e escrever e aqueles que não sabem. Então houve uma segunda grande revolução, a invenção do alfabeto, dos algarismos arábicos com o número 0 e a invenção do papel pelos chineses. Depois houve a invenção da imprensa e, na sequência, rádio e televisão. Essas invenções automatizaram a transmissão de linguagem e de símbolos.
Cada vez que temos grandes transformações no sistema de comunicação, temos uma transformação na cultura e na civilização. E estamos atualmente nesse estágio porque em nosso novo sistema de comunicação toda informação é acessível. É onipresente. Todas as pessoas estão interconectadas, o que é ainda mais importante. E, acima de tudo, temos robôs que são capazes de automaticamente transformar símbolos, como fazer traduções ou cálculos estatísticos. Isso é completamente novo.
Aconteceu no espaço de apenas 20 ou 30 anos. É muito difícil pensar no que serão as implicações dessa mudança na comunicação, mas estamos apenas no começo dessa nova civilização.
Seu trabalho foca-se no conceito de inteligência coletiva. Poderia explicar o que é? [Risos] Sempre essa pergunta! A inteligência coletiva é algo muito velho, de antes da espécie humana. Abelhas, por exemplo, acumulam mel para elas próprias e para a comunidade toda. Formigas conseguem sinalizar entre si onde estão as coisas boas para comer. Comunicação, coordenação e colaboração entre animais sociais é muito frequente. Isso é ainda mais forte entre mamíferos e, claro, primatas. Nós somos primatas e animais sociais, então temos essa habilidade de inteligência coletiva, mas temos algo que os outros animais não têm: linguagem.
Linguagem permite que nós acumulemos conhecimento de geração para geração, e serve para criar novas formas de coordenar e cooperar, muito mais complexas do que no mundo animal.
Então, cada vez que nós somos capazes de empoderar nossa habilidade linguística, por exemplo com o desenvolvimento da escrita, dos meios de comunicação em massa e, agora, com a comunicação digital, nós aumentamos nossa inteligência coletiva.
Para mim, inteligência coletiva é um projeto na era digital que é quase o oposto de inteligência artificial. Em vez de usar computadores para desenvolver máquinas inteligentes, deveríamos usar os computadores para nos tornar mais inteligentes. É claro que não sou contra o aspecto técnico de inteligência artificial, mas acho que o objetivo geral não deveria ser inteligência artificial, mas inteligência coletiva.
Já podemos ver esse aumento da inteligência coletiva. Inteligência é nada mais do que habilidade cognitiva. Memória é uma das mais importantes dessas habilidades. Há muita memória em comum que está à disposição de todos. Podemos aumentar nossa memória [com o conteúdo disponível digitalmente], nossa capacidade racional, por exemplo, ao analisar todos esses dados que estão na rede. Podemos aumentar nossa habilidade de coordenar e colaborar, por exemplo, pelo uso de redes sociais. Não só para o público geral, mas também para empresas, governos.
Fonte:folha.uol

Eu concordo totalmente com o Pierre Lévy,devemos sim criar tecnologias que nos tornem mais inteligentes,e não criar tecnologias que usem a inteligência por nós.
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